quinta-feira, 2 de julho de 2009

Luneta


Eu nem estava com fome, mas naquele dia resolvi sair do sossego sepulcral do meu quarto e comer um hot dog na frente do prédio dele. Fui com segundas intenções, admito.
Nunca soube flertar. Pior ainda era flertar com um hot dog na mão. Por isso comi tudo muito rápido. Depois não sabia o que fazer, mas precisava ficar por ali. "Mais um hot dog por favor." Comi sem tanta pressa então o vi chegar. Com a boca cheia e sem muita atitude comecei a encara-lo. Bastou isso. Ele fez um sinal com a cabeça indicando o portão de entrada. Podia não ser pra mim, mas eu o segui. Da guarita o porteiro nada questionou. Desviei o olhar para o chão daquele prédio sinistro. Andava quase colado às costas daquele que eu observava com minha luneta. E ele era tão mais poderoso assim de perto que ali mesmo eu já mergulhava numa excitação tão inebriante quanto o cheiro de dia de trabalho que ele exalava. O elevador antigo rangia e dava medo, por alguns segundos eu me senti protagonista de um filme noir, mas afastei esse pensamento ao imaginar meu corpo mergulhado no meu próprio sangue. Bem preto como nos filmes em preto e branco. Horrível. Eu não queria acreditar que acabaria mal, mas eu poderia me machucar gravemente se continuasse tremendo e escapulisse parte do corpo por aquela jaula em movimento. Abriu o elevador e me conduziu até sua porta. Nenhuma testemunha. Entrei. Uma sombra movia-se: era seu gato que surgia indiferente à minha presença. Meus dois hot dogs queriam latir, mas segurei a selvageria do meu estômago. Pois estava começando a selvageria das línguas. Sem nada perguntar ele foi segurando meu pescoço como deve fazer um vampiro sedento e sensual. Enfiou as mãos por baixo da minha camiseta acariciando minhas costas arrepiadas. Fiz o mesmo enquanto ele descia uma das mão por dentro da minha cueca insuficiente. Minha roupa não me continha. Então ele me fez o favor de tirá-la deixando exposta minha vulnerabilidade. A crueza daquele ato me deteve.

- Espere. Não posso continuar assim. Preciso antes conhecer você.
Continou a me olhar como se me avaliasse. Levantei a calça jeans e com alguma dificuldade vesti e abotoei.
- O que você faz? Digo... O que lê, o que ouve, com quem sai?...
- Eu leio jornal velho, ouço vinil arranhado e saio sozinho.
Depois desta resposta minha calça foi ao chão novamente. Fui conduzido a um quarto com pouquíssima luz e cheiro de óleo de cenoura. Estava na mesma cama onde deitaram tantos que observei. Todos saíram vivos dali. Nunca vi sangue ou violência extrema. O alívio que me traziam essas lembranças me relaxava e arrancava suspiros que eu colocava na sua orelha quente. Num laço mais que irresistível ele me ergueu e abracei com as pernas aquele corpo tão comum que eu ainda não sabia porque atraía tantos. Eu realmente pensava nisso: que eu seria só mais um. Pensei em fugir, mas não. Fui fraco porque estava (estou?) louco por ele. Não posso me permitir contar-lhes o fim. Foi como todo final. Um fim seco, inodoro, que espera calmamente sua ressurreição.

O meu olho cansa de esperá-lo. A luneta está sempre posicionada. Comprei um binóculo potente na internet. Ainda não chegou.

4 comentários:

Mari Araujo. disse...

Ai ai ai Ely... na primeira parte vc fez uma análise bem rápida e superficial da história, mas disse um detalhe importante: "vc" foi com ele.
Nesta parte agora vc conta como foi a experiência do seu personagem "eu" com o "possível psicopata" rsrsrsrsrs
quem sabe ele não goste de matar de amor, ou de raiva (por ñ repetir o parceiro então mata-o de raiva!!)
rsrsrsrsrsrs

Adorei essa segunda parte, sério mesmo.
Estou esperando a sequencia. Sei q ainda não terminou...

BarelyEly disse...

super ainda não terminou...

Alessandra Santos disse...

Curiosa pra ler a continuação.
Blog devidamente favoritado.

W. Fernandes disse...

Opá!
Então cara, primeiramente vou elogia para depois criticar, OK.

Gostei do estilo, frases curtas, tranbalha bem as ideias sub-entendidas, deixa o leitor pensar.

Contos em primeira pessoa tem a vantagem de passar mais faculmente a 'instrospecção' da personagem e acho que deveria explorar mais esse ponto. Mesmo que o texto fique mais longo, vale para deixar o ambiente da cabeça de cara que vai dar a bunda para um desconhecido mais inteligível.

Também estou começando a escrever e quero evoluir, assim como você. No meu blog tem alguns textos e meus contatos (msn, e-mail, etc). Se quiser torcar ideia, ficarei feliz, porque to aprendendo no tato também!

Abraço e boa sorte!