sexta-feira, 3 de março de 2017

Chocolate, analgésico, café extra-forte, energético e variados tipos de bebidas alcoólicas.

O quanto eu queria estar com você. O pensamento me faz sorrir enquanto empacotam minhas compras. A solidão parece menor quando se tem uma sacola junto ao peito.
Cai uma chuva fina que deixa o asfalto brilhante. Escapei do supermercado: a síntese de todo pânico.
Do ônibus eu olho pela janela, todas as pessoas e seus problemas. Elas não parecem sonhar tanto quanto eu.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Besouros da Amazônia

Um deles trazia nas mãos um coco que não estava furado. E não havia um instrumento que ajudasse ali, no meio do nada. Quando cheguei perto da ponte vi um enorme prego cravado não inteiramente na madeira. Com força bati o coco contra o prego e abri um furo perfeito.
A água parecia infinita. Que bom!
Era tão visível a ressaca deles que parecia ser capaz de me invadir. Estávamos todos perdidos e sabíamos. Não adiantava ter pressa sob aquela paisagem. O rio que dividia a estrada. E que abria caminho e possibilidades de vida e morte sob ou sobre a perigosa ponte. 
O mato sempre com algum rastro humano anunciando um perigo maior. 
Nós três sem mais nada pra fazer a não ser refrescar o que havia de mais quente no corpo.
No meu caso foi preciso mergulhar as coxas inteiras e deixar que a água batesse no ponto onde elas se unem às nádegas cabeludas que nada lembram as de um indígena. Causando um efeito de maior invasão no território. Os dois suspeitos se aproximam e eu sei que se acertar o coco, com força, bem na cabeça do suspeito número 2, ele perderá rapidamente os sentidos. Mas o que fazer com o outro? O que fazer se ele surtar como um macaco irritado? Ele tem mesmo um olhar símio, percebo intrigado e avanço para o fundo molhando de vez a cueca. O suspeito número 1 se levanta de sua posição de homem-das-cavernas-fazendo-fogo e meu olhar não desvia de sua ereção propositalmente indiscreta. Minhas pernas então se movem com dificuldade em meio a uma correnteza invisível. Sou ligeiramente arrastado. Ele vê que preciso de ajuda e vem, pulsando cada vez mais. Ele vem me buscar ou me afogar de vez aqui? De repente aquela clareira parece dar voltas quando os pés dele tocam os meus e sobre a linha da água o calor do sangue vence qualquer pudor e exige nossa união num abraço nervoso e úmido.
A língua volumosa e ágil me sufoca e penso que aquilo é a forma mais doce de me matar. Pois as forças e técnicas de estrangulamento pertencem a ele, eu sei, me disseram, foi ele. Mas a morte não chega. Então me resta permitir que o prazer penetre entre meus pelos mais inconvenientes. 
De perto sou observado pelo olhar vago do suspeito número 2. Levemente estrábico. Estranhando que um homem possa se unir tão intimamente a outro. Parece louco para me enfiar um dedo já que o pau não não fica duro. Aproxima-se sob o olhar convidativo do suspeito número 1. Ele também gosta de lamber, percebe minha orelha.
Na margem meus joelhos já estão machucados pelas pedras sob a água rasa e cada vez mais turva. O suspeito número 2 já se encontra com a língua trêmula no meio da minha bunda, arfando ruidosamente, enquanto o suspeito número 1, de pé, me sufoca pela segunda vez segurando minhas orelhas febris de desejo. O prazer é tanto que chego a puni-lo com os dentes enquanto ele sussurra seu palavreado baixo olhando pra cima e, por vezes, com fúria para baixo, para os meus olhos lacrimejantes. 
Tão embriagados estão que não notam ao longe o ronco de um motor. A pickup é rápida e em segundos encosta ao lado do meu carro atolado. As roupas são vestidas às pressas e naquele momento não notamos a maravilha que nos foi privada.

Pai e filho nos oferecem ajuda e não consigo sentir alívio ao ver o carro sair do atoleiro. Apenas raiva. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Monstro


Simples como uma linha de saliva do palato até a língua.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Capítulo I

Se eu morrer vai parar de doer. Pensei antes de tomar a dose e começar meu trabalho diário. O sol estava alto e, desde a hora que o vi nascer, nenhuma nuvem apareceu para encobrir sua luz. Eu sei disso porque o branco ofuscante ao meu redor não foi tomado por sombras. Assim como minha mente no momento que escrevo. Coloquei uma das mãos na frente do rosto e me senti um Lázaro ao sair do túmulo, mas, diferente dele, eu não era fruto de um milagre.
Meus colegas se encaminhavam aos poucos para o refeitório. Não sei em que mesa sentar. Não sei nem se estou com apetite. Atravesso o corredor externo tocando as samambaias. A fila é pequena e ágil. Foi possível me servir rapidamente e partir dali imperceptível. Vou comer mais sossegado em uma mesa à sombra das árvores. Não me isolo o quanto gostaria para não chamar atenção. Ao sentar percebo que tem alguém a caminho. Aí vem ele sorrindo. Em minha direção. Preciso sorrir. Não sei mais como fazer isso. Que força tremenda estou fazendo para retribuir um sorriso. Não quero precisar falar. Não quero, não quero.
- Como vai, Camillo?
- Bem.
Entre a pergunta e a resposta nuvens passam aceleradas sobre minha cabeça. Ele pousa a bandeja sobre a mesa e me oferece um copo de suco de laranja. Desta vez meu sorriso é legítimo, mas rapidamente se desfaz. Ocupo a boca para não ter que falar. Mastigo. Ouço o farfalhar das folhas misturando-se ao burburinho do refeitório e ao som dos meus próprios dentes dilacerando a comida. A qualquer momento vou ouvir um comentário vindo dele. Sou capaz de imaginar o silêncio absoluto que precede sua voz.
Nada além de folhas secas no chão e folhas verdes nos galhos. A paz daqui nunca me agradou, mas estou adaptado, finalmente, a isto. Tenho uma rotina exemplar: ajudo na cozinha, na faxina. Estudo, ensino, leio os mais variados livros. Escrevo. Nenhuma das atividades é um empecilho para a terapia. Ao contrário, sou sempre encorajado. Deveria me preocupar se me tornei dependente do produto de tanta ocupação, mas todos sabem que vou piorar se me entregar ao ócio. Então continuo colaborando para essa atmosfera impecável. E faço do meu corpo uma extensão desse lugar asséptico. Minhas roupas são lavadas à mão por mim mesmo. O mesmo sabão neutro que uso nelas está no banheiro para que eu me lave duas ou três vezes ao dia (minha vontade é tomar mais de cinco banhos). Na pia tem um antibacteriano e um grande tubo de álcool em gel. Não fico ressecado porque descobri que existe hidratante sem perfume assim como meu desodorante. Não deve haver um frasco de perfume num raio de cinquenta metros. Os perfumes perturbam os sentidos.
Não me falta tempo para fazer o que mais gosto: escrever. Gosto do barulho das teclas da antiga máquina de datilografia que, se não fosse por mim, estaria enferrujada. Uso ela para a primeira edição de qualquer coisa que componho. Depois corrijo os muitos trechos que me incomodam no computador. Ao final envio pra um email e não guardo nada no arquivo. Tudo que tenho são papéis que um dia levaram uma surra das teclas. Provavelmente o arquivo do email será um dia editado e, usando sucessivas mentiras, eu vou trabalhar muito para tapar os furos da minha história.
Não posso negar que há muita solidão neste processo. Diria que estou enlouquecendo se não fosse irônico demais. Só estes papéis me aproximam do que se chama diálogo, e foram diálogos comigo mesmo que me trouxeram aqui.
Ensaiei contar muitas vezes o início de tudo, mas o desfecho parece me impedir de ver todo o resto com clareza. Quando se apagaram as horas finais também se apagaram as luzes e quando finalmente se acenderam vi minhas mãos sujas de sangue. Por isso as lavo obsessivamente até hoje. Acordo em pé. Às vezes até escrevo dormindo.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Finge tão completamente

Estou querendo escrever algo
mas não tenho nada em mente
e não quero mais sentir
a dor que deveras sente

sábado, 18 de outubro de 2014

A casa de número 12

O sol de muitos anos depois o iluminava descendo a ladeira.
Passos lentos de um velho e sorriso de um garoto.
Os olhos também sorriam, mas olhavam para o vazio.

Quase um mês depois de voltar de viagem aquele domingo era só mais um dia de espera.
Sentei junto ao portão e, numa tarde inteira, só consegui ler dois parágrafos de livro.
Meus olhos passeavam numa subida ladrilhada até o portão da casa dele.
Ignorei à princípio a silhueta de um homem gordinho que andava muito devagar, com alguma dificuldade.
Voltei ao livro totalmente desconcentrada. Os passos daquele rapaz eram cada vez mais trôpegos e ele ameaçava rolar ladeira abaixo.
Minha mãe, de repente, cruzou o portão arrancando um barulho metálico que logo se misturou à sua voz.
Ele está andando!
Então foi preciso muita força para me manter de pé. Eu queria deitar no jardim, eu queria descer até a raiz daquela grama e lá ficar pra que ele deitasse também e pudesse descansar sua demência.
Foi uma pancada na cabeça. 
Eu ouvia toda a história sem poder demonstrar mais do que pena. Eu era boa em esconder as coisas. 
Todo aquele tempo e, à vista de todos, ele não era mais que um vizinho para quem eu dava bom dia, boa tarde e boa noite. Mas em cada um desses encontros casuais eu recordava cada detalhe do seu corpo.
Com a esposa dele não fiz amizade. Era também uma vizinha para quem eu sorria cordialmente. O assaltante a matou quando ela reagiu à coronhada que Raul recebeu. Hoje nenhum dos dois é capaz de recordar o que aconteceu. Ela se foi e as lembranças dele foram bagunçadas pela lobotomia. 
Ele hoje é como uma criança, disse minha mãe.
Uma doce criança. Eu chorava no banheiro. 

Eu me despedi dizendo que voltaria. Voltei e não entendo se ele está presente ou não. E talvez ele não entenda uma só palavra minha. Pelo menos agora tenho muitas horas por dia ao lado dele. Deixei a UTI e divido esse trabalho particular com outra enfermeira. Não lembro de já ter sentido tanto calor na pele dele como agora. Não lembro dele ter sorrido tantas vezes. Não lembro de ter sido tão completamente feliz como sou hoje.

domingo, 4 de maio de 2014

O Imperador do Oriente

Eu já não estava lá 
quando a lua entrou em casa maligna
levando a vertigem
apagando o lustre 
encerrando a festa 
e te pondo pra dormir

O amanhã já não existia 
e o oriente dançava sob as sombras da nova ordem
porque no oriente tudo chega primeiro 
e o imperador veio de lá
trazendo um diamante entre os dentes

E não importava quantos mais precisassem morrer
ele queria você e seu refúgio lunar
Você mais uma vez foi a causa de um massacre
quase um extermínio
não fosse minha coragem em negar
ludibriar mais uma vez
e roubar 
o diamante com um beijo
pra te dar

e colocar no centro da sua sala de estar.