sexta-feira, 3 de março de 2017

O quanto eu queria estar com você. O pensamento me faz sorrir enquanto empacotam minhas compras. A solidão parece menor quando se tem uma sacola junto ao peito.
Cai uma chuva fina que deixa o asfalto brilhante. Escapei do supermercado: a síntese de todo pânico.
Do ônibus eu olho pela janela, todas as pessoas e seus problemas. Elas não parecem sonhar tanto quanto eu.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Monstro


Simples como uma linha de saliva do palato até a língua.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Capítulo I

Se eu morrer vai parar de doer. Pensei antes de tomar a dose e começar meu trabalho diário. O sol estava alto e, desde a hora que o vi nascer, nenhuma nuvem apareceu para encobrir sua luz. Eu sei disso porque o branco ofuscante ao meu redor não foi tomado por sombras. Assim como minha mente no momento que escrevo. Coloquei uma das mãos na frente do rosto e me senti um Lázaro ao sair do túmulo, mas, diferente dele, eu não era fruto de um milagre.
Meus colegas se encaminhavam aos poucos para o refeitório. Não sei em que mesa sentar. Não sei nem se estou com apetite. Atravesso o corredor externo tocando as samambaias. A fila é pequena e ágil. Foi possível me servir rapidamente e partir dali imperceptível. Vou comer mais sossegado em uma mesa à sombra das árvores. Não me isolo o quanto gostaria para não chamar atenção. Ao sentar percebo que tem alguém a caminho. Aí vem ele sorrindo. Em minha direção. Preciso sorrir. Não sei mais como fazer isso. Que força tremenda estou fazendo para retribuir um sorriso. Não quero precisar falar. Não quero, não quero.
- Como vai, Camillo?
- Bem.
Entre a pergunta e a resposta nuvens passam aceleradas sobre minha cabeça. Ele pousa a bandeja sobre a mesa e me oferece um copo de suco de laranja. Desta vez meu sorriso é legítimo, mas rapidamente se desfaz. Ocupo a boca para não ter que falar. Mastigo. Ouço o farfalhar das folhas misturando-se ao burburinho do refeitório e ao som dos meus próprios dentes dilacerando a comida. A qualquer momento vou ouvir um comentário vindo dele. Sou capaz de imaginar o silêncio absoluto que precede sua voz.
Nada além de folhas secas no chão e folhas verdes nos galhos. A paz daqui nunca me agradou, mas estou adaptado, finalmente, a isto. Tenho uma rotina exemplar: ajudo na cozinha, na faxina. Estudo, ensino, leio os mais variados livros. Escrevo. Nenhuma das atividades é um empecilho para a terapia. Ao contrário, sou sempre encorajado. Deveria me preocupar se me tornei dependente do produto de tanta ocupação, mas todos sabem que vou piorar se me entregar ao ócio. Então continuo colaborando para essa atmosfera impecável. E faço do meu corpo uma extensão desse lugar asséptico. Minhas roupas são lavadas à mão por mim mesmo. O mesmo sabão neutro que uso nelas está no banheiro para que eu me lave duas ou três vezes ao dia (minha vontade é tomar mais de cinco banhos). Na pia tem um antibacteriano e um grande tubo de álcool em gel. Não fico ressecado porque descobri que existe hidratante sem perfume assim como meu desodorante. Não deve haver um frasco de perfume num raio de cinquenta metros. Os perfumes perturbam os sentidos.
Não me falta tempo para fazer o que mais gosto: escrever. Gosto do barulho das teclas da antiga máquina de datilografia que, se não fosse por mim, estaria enferrujada. Uso ela para a primeira edição de qualquer coisa que componho. Depois corrijo os muitos trechos que me incomodam no computador. Ao final envio pra um email e não guardo nada no arquivo. Tudo que tenho são papéis que um dia levaram uma surra das teclas. Provavelmente o arquivo do email será um dia editado e, usando sucessivas mentiras, eu vou trabalhar muito para tapar os furos da minha história.
Não posso negar que há muita solidão neste processo. Diria que estou enlouquecendo se não fosse irônico demais. Só estes papéis me aproximam do que se chama diálogo, e foram diálogos comigo mesmo que me trouxeram aqui.
Ensaiei contar muitas vezes o início de tudo, mas o desfecho parece me impedir de ver todo o resto com clareza. Quando se apagaram as horas finais também se apagaram as luzes e quando finalmente se acenderam vi minhas mãos sujas de sangue. Por isso as lavo obsessivamente até hoje. Acordo em pé. Às vezes até escrevo dormindo.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Finge tão completamente

Estou querendo escrever algo
mas não tenho nada em mente
e não quero mais sentir
a dor que deveras sente

domingo, 4 de maio de 2014

O Imperador do Oriente

Eu já não estava lá 
quando a lua entrou em casa maligna
levando a vertigem
apagando o lustre 
encerrando a festa 
e te pondo pra dormir

O amanhã já não existia 
e o oriente dançava sob as sombras da nova ordem
porque no oriente tudo chega primeiro 
e o imperador veio de lá
trazendo um diamante entre os dentes

E não importava quantos mais precisassem morrer
ele queria você e seu refúgio lunar
Você mais uma vez foi a causa de um massacre
quase um extermínio
não fosse minha coragem em negar
ludibriar mais uma vez
e roubar 
o diamante com um beijo
pra te dar

e colocar no centro da sua sala de estar.


domingo, 26 de janeiro de 2014

Veloz

Infelizmente, tenho o dom de tornar eterno o que seria momentâneo.

Transformar em cegueira qualquer farol veloz que cruzou na estrada.

Comigo os preparativos são sempre pra casamento ou funeral.

E antes do dia da minha morte qualquer parada é ânsia de morrer.

sábado, 31 de agosto de 2013

Um Engodo

- Então você cochilou ontem? - perguntei assim que retiraram o aparelho que ajuda a respirar.
- Anjos da guarda às vezes dormem, às vezes se cansam também.
Ao levantar da cama pude vê-lo melhor. Era da minha estatura, incrivelmente pálido e mais magro. Sendo que eu já me acho bem magro.
Era tudo que eu não imaginava ter como anjo da guarda. Devem ter me reservado o pior de todos, pensei.
Parecia ser mais novo, mais imaturo ainda com aquela roupa de skatista que eu usava há dois anos. Em vez de asas tinha um skate muito parecido com o meu. Ele todo era parecido comigo e por isso eu não conseguia simpatizar com nada do que via.
- A verdade é que ontem falhei - continuou ele - e raras vezes temos oportunidade de falar com o protegido. Você agora está dormindo. Quando acordar não lembrará deste sonho e vai correr muito mais riscos pondo à prova minha competência. Eu só vou ter a chance de encarnar humano se fizer um bom trabalho. Não espero que você se importe, afinal é por este motivo que você não lembrará dessas palavras. Mas como no sonho os humanos são puros existe aqui a oportunidade de você, como tanto queria... se livrar da sua vida. Sem sofrimento, sem castigo. E não haverá mais contato entre nós anulando esse ódio que você tem de mim por eu ter te salvado no último minuto. Como aqui não há mais o ódio que você tem de si mesmo a sua alma vai finalmente descansar. Em troca eu vou encarnar em poucos minutos aqui mesmo neste hospital quando nascer a próxima criança.
Consegui rir com as forças que me restavam, mas no fim ponderei que aquilo era tudo que eu precisava. Fazer realmente uma coisa da qual não haveria retorno e dar tal oportunidade grotesca ao odioso anjo que tanto queria ser humano.
Para cumprir minha parte no trato abri imediatamente a janela e ansioso me joguei do quinto andar fazendo para ele um gesto obsceno.
- Otário - disse Lúcifer sarcástico. E deslizando pelos corredores com seu skate encaminhou-se para a sala de parto.