segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Caçula e o Único

Ele me disse que era o filho caçula e eu já sabia disso.
No meu quarto eu disse sou filho único e logo ao lado o quarto vazio da minha mãe que viajara.
Eu preparei o café depois da noite mal dormida ao lado dos seus roncos.
Eu dei todo o mimo que um caçula tradicionalmente recebe e ele me deu o que um filho único mais deseja: atenção.

E tudo deu certo naquele domingo.
Um domingo com as cortinas fechadas.
Onde o chão vestiu nossas roupas.

Eu o acompanhei até o portão quando ele se foi.
E lembro do piscar de olho até agora.
Dizendo foi bom e talvez eu volte.
E este talvez foi me matando até que abri as cortinas roxas do meu quarto.
E o sol de domingo era o mesmo.

domingo, 1 de abril de 2012

Um dia qualquer

Ontem, na hora do almoço, eu comecei a chorar.
Então disse a todos que coloquei pimenta demais e ainda dei risada.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

sábado, 28 de janeiro de 2012

Aleatório

Eu vou visitar alguém que não conheço, pois sou criança e só conheço a família e alguns amigos.
Eu estou na casa de alguém que não conheço e há fofocas por toda parte e gente que não se importa comigo, bem como gente que eu não vou citar.
Do outro lado da rua há um grande portão aberto por onde vejo uma piscina mais que refrescante naquele dia de calor.
Eu não lembro o nome dela, eu não lembro quem me convidou...
Eu estou na piscina e o aniversariante ganhou um patinete.

Eu caio de uma cama desconhecida num chão que não é o meu.
Um chão que tem meias usadas.
Eu vejo pés descalços e copos pelo chão.
Parece que meus cílios estão cheios de fibras de tecido.
Eu quero levantar do chão frio.
Fecho os olhos.

Estou num elevador que desce veloz.
Para no oitavo andar onde um homem puxa a porta e chama toda a família.
Logo todos me olham com estranheza.
Estou nu.

Eu desci a ladeira no patinete que ele me emprestou.
Eu não emprestaria um patinete novo a um desconhecido.
Eu desci a ladeira ouvindo gritos atrás de mim.
O vento secava meu cabelos.
A buzina invadiu meus sonhos.
E era tudo o que eu um dia faria.


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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

FILMES QUE PODEM ACONTECER COM VOCÊ


#10 - MAGNÓLIA
Se sua vida não é perfeita certamente haverá um personagem e/ou história neste filme que irá te fazer reviver tensões comuns do mundo cão. Seja você uma criança prodígio, uma viciada carente, um policial inseguro, um palestrante misógino, uma esposa com remorso por só amar o marido quando este se encontra no leito de morte, um ex prodígio desvalorizado, carente, complexado e solitário. Entre outros personagens que parecem viver no seu bairro, condomínio, ou até mesmo viver sua vida. 
Perto do final o diretor Paul Thomas Anderson lança mão de um elemento surreal, inesperado e, para alguns decepcionante, para interromper ou apaziguar o sofrimento dos personagens envolvidos na obra até então realista. E é por este motivo que Magnólia (o melhor filme desta lista) ocupa a décima colocação. 


#9 GATTACA

O filme que pode vir a acontecer. Num futuro próximo onde a manipulação genética criou novas espécies de castas, preconceitos e segregações sociais. 
Em um mundo onde se sabe muito bem que é preciso primeiro errar para então se construir um código de ética, a ciência é mais uma escrava do capitalismo de produção onde humanos melhorados geneticamente ocupam altos cargos enquanto aos concebidos de forma natural resta o desconforto de uma posição inferiorizada.
Um filme nebuloso e belo que entrou na lista por ser uma ficção científica realista cheia de conflitos éticos.


#8 AS HORAS

O filme que deu o Oscar a Nicole Kidman aborda as profundezas do universo feminino em três épocas diferentes. O drama interno de mulheres sufocadas por convenções sociais, sendo que nem mesmo a mais moderna delas (vivida por Meryl Streep) escapa de situações insolúveis. As escolhas e concessões das mulheres através dos tempos, diferentes sob a ótica sociocultural, mas semelhantes na visão feminina ao enfrentar medos e angústias.
Destaque para a dona de casa Laura Brown, interpretada por Julianne Moore. Certamente tocou muitas outras em situação semelhante espalhadas pelo mundo.


#7 ADORAÇÃO

Deve ser o filme mais complicado da lista, o que não exclui a possibilidade de muitas coisas ocorridas nele acontecerem a você. 
O ato de adorar requer paciência e obsessão, com a primeira se descobrem as minúcias do objeto adorado, com a segunda é que propriamente adoramos e demonstramos a devida dimensão da adoração. E dimensão é uma palavra que define bem este filme. Quão importante é um segredo de família guardado desde antes de você nascer? A intervenção e o envolvimento de terceiros na nossa história é tão comum não é mesmo? E o que se passa com eles? O que eles sentem ou sentiram? Ou ainda o que pretendem? Questões sempre presentes mesmo quando não manifestadas.


#6 MISTÉRIOS DA CARNE


O tema mais polêmico da lista. Tratado com audácia, mas também humanizado pelo diretor Gregg Araki e pelo protagonista vivido por Joseph Gordon-Levitt que desde a infância se encontrava ciente do que sentia pelo treinador de baseball. A pedofilia, também vivida na pele por um outro garoto, entra no campo dos traumas mais devastadores que podem ocorrer a alguém. E este de que nada tinha ciência é quem busca uma explicação para o que julga ter vivido, enquanto o outro simplesmente aceita como o acontecimento que formou seu caráter. 
Pode não ter acontecido a você, mas todos nós um dia nos deparamos com o passado tão presente a ponto de questionar no que aquilo nos transformou.


#5 FESTA DE FAMÍLIA

A partir de agora as agruras de que quase ninguém escapa. As deliciosas festas de família com seus vídeos, fotografias, banquetes e... barracos. Aquele membro disposto a estragar a festa que, nos bastidores (todos sabem) já padece muito antes da bomba explodir. E como é bom assistir (em vídeo!) a tudo isso. É como estar em casa para alguns. Entre o tenso e o constrangedor as cenas se desenrolam no seio de uma grande família cheia de segredos e preconceitos. Experiência por vezes indigesta, por vezes satisfatória.


#4 HERÓIS IMAGINÁRIOS


Disfarçado de tragicomédia este filme funciona como uma suave tortura. Confrontando a todo momento as frustrações vividas por cada membro da família o enredo se desenrola entre sarcasmo e paranóia. Pais e filhos relapsos e suas tentativas infrutíferas de aproximação provocam no público sensações que vão da raiva à piedade. Sem perder o traço cômico que há na falta de comunicação em qualquer família moderna, Heróis Imaginários vai deixar em você um sorriso amargo e um nó na garganta.


#3 OS GAROTOS DA MINHA VIDA
Baseado em fatos reais Os Garotos da Minha Vida é mais uma comédia dramática da lista, isto se alguém na mesma situação da protagonista conseguir ver alguma graça. Grávida aos 15 anos de idade, Beverly D'Onofrio se vê obrigada a casar com um sujeito que não poderia ser pior partido. Ambientado nos anos 1960 o filme ainda é o retrato de muitas famílias conservadoras e de muitos outros malfados lares que se formam a partir do descuido de dois jovens. É uma lição de vida desviando do clichê que poderia viar a ser. 


#2 AMORES IMAGINÁRIOS

"Quem nunca?" é uma ótima pergunta para fazer a quem acaba de ver este filme. Quem nunca confundiu afeto com amor? Enxergar amor onde ele não existe é o passatempo de muita gente na faixa dos 20 anos. Fazer tudo errado é também típico de quem se apaixona. Essa identificação com os personagens é para uns motivo de ligeira empatia, para outros é o tormento de reviver aquela paixão que se alimenta compulsivamente de nossa auto estima. Em meio à arte de Xavier Dolan (diretor e ator) o que é original no cinema nada mais é que a reprodução da vida real.


#1 CLOSER

Discutir se existe amor em Closer é discutir se o amor existe na própria vida. A grande confusão entre vaidade, libido e orgulho torna os quatro (únicos!) personagens extremamente humanos e por isso tão apaixonantes quanto odiosos. Estão aí todas as formas de dominação presentes num relacionamento, da chantagem emocional à mesquinharia do divórcio litigioso. O jogo sujo da sedução e o preço que pagamos por nos deixarmos seduzir. A ilusão que construimos enquanto o outro nos trai de maneira vil. Deste ou do outro lado da moeda estamos vivendo Closer em qualquer dia ou lugar. 

sábado, 24 de dezembro de 2011

500 passos

Depois que ele disse eu estarei lá eu sorri e caminhei as duas quadras que separam a sua da minha casa.

17 passos: estou pensando no que vou jantar.

34 passos: me distraio com alguma preocupação do trabalho.

78 passos: tento lembrar a roupa que ele vestia, pois eu só olhava pro seu rosto e para o chão.

83 passos: como é possível eu não lembrar a roupa que ele vestia???

145 pasos: por que fui visita-lo?

147 passos: para que ele me contasse mais um monte de mentiras.

189 passos: mentiras.

206 passos: a música que me faz lembrar dele começa a tocar.

207 passos: vou trocar a faixa.
257 passos: ouvi a música toda.

269 passos: observo as pessoas que bebem animadamente no bar onde nos conhecemos.

272 passos: passo bem devagar por ali.

285 passos: seria legal se ele fosse mesmo.
286 passos: não posso ter certeza se ele irá ou não e isso vai me matar esta noite.

299 passos: meu estômago dói e um ar frio penetra no meu nariz para confundir minha vontade de chorar com um simples espirro.

370 passos: estou quase correndo e não quero cruzar com ninguém, a menos que seja ele em sua moto pronto para me levar a qualquer lugar, o que importa o lugar, Deus eu só quero estar com ele!

384 passos: eu não estou chorando, tenho autocontrole.

421 passos: sofro porque quero, quero sobretudo me iludir, estou sorrindo para o pôr do sol, ouço uma música alegre, sofro ainda? Sofro. Estou sorrindo, mas também chorando.

458 passos: a vizinhança me cumprimenta alegremente e tenho medo de um grito desesperado me escapar da garganta. Assim simplesmente. Desesperado.

490 passos: o meu portão é logo ali.

499 passos: ponho a chave na fechadura e olho para a rua lembrando a noite em que estivemos juntos pela primeira vez.

500 passos: eu cruzo a porta e nela me encosto pela parte de dentro. 


E este momento se destrói, todo tempo se destrói até que eu o veja sorrir, até a próxima ilusão, promessa, mentira. Até mesmo a mentira é melhor que suportar o chão frio da solidão e a porta trancada, eternamente trancada como a minha garganta engolindo um choro muito maior que ela.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O Barco

Ali curvado eu notei as escamas no meu sapato, a rede de pesca roçando no meu ombro com seu cheiro de mar e lama. 
Vão nos ver aqui. 
Consegui dizer esperando não ouvir o pior.
Não, não vão, está escuro.
O barco era inacabado e pequenos caranguejos entravam ali com sua pressa e desenvoltura características.
Eu o abracei para me apoiar e sentir melhor seu cheiro.
Foi só perceber que aquilo era real para eu mergulhar no mais obsceno sonho.
Ele me segurou e eu me curvei ao máximo para a frente segurando na madeira cheia de farpas.
Acho que a hora mais íntima é essa em que o pau entra com a minha ajuda.
É como se eu o agarrasse no ponto mais fraco fazendo ele se entregar e desejar nada mais que me preencher. E ele tinha atributos para isso.
Quando senti que estava completo, entregue numa mútua falta de vergonha eu enfim sorri para o infinito.
Para a escuridão e para o brilho de sua pele que eu via bem de perto quando roubei um beijo.