quarta-feira, 4 de março de 2009

A história do meu ombro direito

Meu quarto tem agora um peculiar objeto de decoração: o raio-x do meu ombro direito.
Na noite do dia 27/02/09 resolvi passar por baixo de um caminhão cujo motorista se encontrava na cabine. De longe o ato mais impulsivo de toda minha vida, e mais idiota, reconheço.
Impulsividade que deve ter um fundo clínico ainda não destrinchado pela falta de terapia.
O fato é que cometi tamanho desatino com a única intensão de assustar a R.
Debaixo do caminhão (uma náusea me invade toda vez que recordo) senti uma descarga de adrenalina e... arrependimento. Num simples movimento de apoio desloquei meu braço. O caminhão nem se moveu. Do outro lado a R. me esperava perplexa. De pé eu percebi que algo estava fora do lugar. "Vamos no hospital R., meu ombro deslocou". Não lembro de ter visto o rosto dela até chegarmos ao hospital, mas posso afirmar que o pânico por pouco não tomou conta de sua expressões.
Primeiro Hospital: Deserto. Um recepicionista assustado me recebeu e me encaminhou imediatamente para outro hospital, até chamou um táxi (rezar por ele). Com o taxista mais legal de todos os tempos (rezar por ele), segui com a R. na esperança de pôr logo a porra do braço no lugar. A expressão de susto de todos que me viam era a única coisa que me dava noção da gravidade da luxação. O taxista contou que o mesmo aconteceu com a mãe dele e um conhecido arrumou tudo com uma garrafa na axila da coitada e um movimento brusco e preciso.
Segundo Hospital: Quase deserto. O recepcionista (lembrar de matá-lo) mal me olhou e me encaminhou com arrogância para uma nova trilha de dor e desesperança. "Se lá tiver alguém que faça isso eles põem, aqui não tem ninguém". No táxi a dor parecia se multiplicar.
Terceiro Hospital: Lotado. Ingenuidade minha achar que logo seria atendido escapando da burocracia que tudo neste país exige. Eu mesmo me poupo da chateação de descrever, afinal a R. ficou com meus documentos e cuidou de tudo (beijo pra ela). Uma cadeira e uma espera dolorosa me aguardava. Eu lamentava aquele AVC na minha sanidade. A inconsequência doía muito mais que os músculos e os nervos. Furei a fila de atendimento. Pela primeira vez notaram a emergência. O médico era dos piores (lembrar de matá-lo). Sequer fez uma avaliação e deduziu que o problema era no meu pulso (!). Seguiu-se uma discussão pseudoacalorada porque infelizmente eu precisava dele. Entrei numa sala onde os enfermeiros eram atrapalhados e, nitidamente inexperientes. "É aqui que eu vou perder meu braço" pensei. Para lá e para cá: um inferno! Acabei numa maca com a R. segurando meu braço e uma enfermeira nada nada Pearl Harbor ao meu lado. No outro braço um enfermeiro enfiava um soro que seria via da minha maior viagem: Diazepan.
Um capítulo à parte: é como ver por dentro de um cristal. Foi quando vi minha mãe. Achei que estava morto e que estávamos no céu.
Disse de tudo: atalhos do msn, pedi beijos, amei pessoas, pedi silêncio e, segundo todos que lá estavam eu insistia em perguntar se meu braço já estava no lugar. Coitado de mim.
Acordei na maior ressaca. O braço no lugar. Mamãe do meu lado: um sonho.
E a vida sem diazepan.
Saldo positivo: dois dias de licença.
"Essas coisas acontecem para a gente sair da rotina"
R.
Veja também a versão da R. em:
http://nadataomeu.blogspot.com/

Um comentário:

Willian Kleber Araujo disse...

Cara muito massa essa narração....

Aconteceu mesmo? Q zica heim....

Mas não entendi ainda como vc foi para embaixo do caminhão... rsrsrsrs

Abraço fique na paz.