quarta-feira, 27 de maio de 2009

Bella

- Aqui não se deve ver certas coisas.
Estremeceu ao passar pelo cego que lhe deu a máscara.
- Melhor não falar mais nada. Ele é cego, mas não é surdo.
Laura concordou com um movimento de cabeça e logo adentrou o salão com a máscara atada ao rosto. Vestia um maiô elegante e sapatos de saltos vertiginosos.
Sua acompanhante bem mais desinibida usava apenas sapatos de salto e a obrigatória máscara.
- Você está linda! O que anda fazendo ultimamente?
- Ultimamente estou sendo feliz.
Laura estava ali para ser feliz. Abriu um sorriso que o véu da máscara ocultou.
As duas entraram tensas no salão. Lá dentro não seriam mais conhecidas.
Luzes mais fortes se acenderam revelando o círculo de mulheres.
Imóveis como manequins. O luxo chegou logo aos olhos de Laura. O brilho das jóias e dos sapatos de griffie a deixou desconcertada. Laura não tinha jóias, mas ganhara sapatos belíssimos da amiga e suas pernas nunca foram motivo de vergonha. Apesar de estarem trêmulas naquela ocasião.
O silêncio foi quebrado por passos femininos. O inconfundível barulho de saltos no piso ecoava cada vez mais próximo.
Entrou no cículo uma mulher negra e bela que não usava máscara.
Sua lingerie lembrava todo o exotismo da África e suas peles de animais.
A mulher misteriosa anunciou:
- Queridas. Hoje temos uma novata entre nós. - Sorriu revelando dentes branquíssimos - Por favor Bella, aproxime-se.
Laura demorou para reagir ao chamado de seu pseudônimo, mas após o primeiro passo deu mais outros cinco.
A mulher da lingerie africana lhe sorriu e arrumou seus cabelos ruivos revelando seus ombros que sob aquela luz eram pálidos ao ponto de brilhar.
- Queridas hoje é o dia da novata - disse a mulher sem máscara - Podem me dizer o que fazemos nesse dia?
Um coro ecoou: Assistimos, apenas assistimos.

Dois homens com máscaras de carrasco entraram carregando um divã.
Laura foi avisada, mas tinha medo. Nunca fizera sexo com pessoas olhando. Tinha o anonimato que a máscara proporcionava, mas sentia um pudor inesperado.
Um terceiro homem chegava com uma máscara típica de Veneza. Sóbria e inexpressiva. Os carrascos se retiraram e o homem mascrado sentou-se no divã. Vestia somente cueca e nada mais. Acariciou o assento macio convidando Bella (e não Laura) para sentar ao seu lado. A mulher sem máscara gesticulou sugerindo a mesma coisa.
Laura (e não Bella) nunca sentira-se tão tensa. Numa atitude inesperada correu rompendo o círculo de mulheres. Chorava de arrependimento e vergonha. Quase caiu de tão apressada. Seus sapatos atrapalhavam tanto que resolveu abandoná-los. Só deu para colocar rapidamente o vestido que ela arrancou das mãos do cego. Descalça na rua correu até seu carro cor de abóbora. Passava um minuto da meia-noite.
Atônita sua amiga também correu mas só encontrou um dos sapatos.
O outro estava nas mãos do homem mascarado.


Continua...

3 comentários:

felipe ! disse...

cinderela ?


só sei que adorei.

Eloiane disse...

Uma Cinderela a lá Melissa Paranello!!

Blog da Carlinha M. disse...

Poxa,mas ela fugiu qnd ia rolar o melhor! hahaha

Adorei a trama.