sábado, 18 de outubro de 2014

A casa de número 12

O sol de muitos anos depois o iluminava descendo a ladeira.
Passos lentos de um velho e sorriso de um garoto.
Os olhos também sorriam, mas olhavam para o vazio.

Quase um mês depois de voltar de viagem aquele domingo era só mais um dia de espera.
Sentei junto ao portão e, numa tarde inteira, só consegui ler dois parágrafos de livro.
Meus olhos passeavam numa subida ladrilhada até o portão da casa dele.
Ignorei à princípio a silhueta de um homem gordinho que andava muito devagar, com alguma dificuldade.
Voltei ao livro totalmente desconcentrada. Os passos daquele rapaz eram cada vez mais trôpegos e ele ameaçava rolar ladeira abaixo.
Minha mãe, de repente, cruzou o portão arrancando um barulho metálico que logo se misturou à sua voz.
Ele está andando!
Então foi preciso muita força para me manter de pé. Eu queria deitar no jardim, eu queria descer até a raiz daquela grama e lá ficar pra que ele deitasse também e pudesse descansar sua demência.
Foi uma pancada na cabeça. 
Eu ouvia toda a história sem poder demonstrar mais do que pena. Eu era boa em esconder as coisas. 
Todo aquele tempo e, à vista de todos, ele não era mais que um vizinho para quem eu dava bom dia, boa tarde e boa noite. Mas em cada um desses encontros casuais eu recordava cada detalhe do seu corpo.
Com a esposa dele não fiz amizade. Era também uma vizinha para quem eu sorria cordialmente. O assaltante a matou quando ela reagiu à coronhada que Raul recebeu. Hoje nenhum dos dois é capaz de recordar o que aconteceu. Ela se foi e as lembranças dele foram bagunçadas pela lobotomia. 
Ele hoje é como uma criança, disse minha mãe.
Uma doce criança. Eu chorava no banheiro. 

Eu me despedi dizendo que voltaria. Voltei e não entendo se ele está presente ou não. E talvez ele não entenda uma só palavra minha. Pelo menos agora tenho muitas horas por dia ao lado dele. Deixei a UTI e divido esse trabalho particular com outra enfermeira. Não lembro de já ter sentido tanto calor na pele dele como agora. Não lembro dele ter sorrido tantas vezes. Não lembro de ter sido tão completamente feliz como sou hoje.

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